ALTERAÇÕES CEREBRAIS EM GERIATRIA

Nos animais geriátricos são frequentes mudanças comportamentais, perdas sensoriais (visão e/ou audição), ou da mobilidade, muitas vezes desvalorizados pelos proprietários e médicos veterinários (MV) como parte do processo natural de envelhecimento. A fronteira entre o que é normal na velhice e uma disfunção importante ou preocupante é por vezes difícil de estabelecer. Se um cão se perde a regressar de um passeio,  ou parece não se lembrar de alguém que conhece, deixa de vir receber os membros da família quando chegam, ou passa os dias a dormir mas está activo durante a noite, provavelmente sofre de uma perda da função cerebral equivalente às demências dos seres humanos.  Em alguns destes cães ocorre marcada atrofia do parênquima cerebral como na doença de Alzheimer em humanos, noutros cães e gatos o cérebro está morfologicamente normal. Nos seres humanos estão identificadas vários tipos de demências, mas em cães e gatos utiliza-se por enquanto a designação genérica Síndrome de Disfunção Cognitiva (SDC).

Noutros casos a disfunção é óbvia e motiva a queixa dos proprietários, como num animal que parece não ligar ao que o rodeia, caminha compulsivamente em círculos sempre para o mesmo lado, ignora estímulos de um dos  lados do corpo onde também se detectam déficits posturais, e/ou que começou a ter ataques epilépticos (sem história de epilepsia ao longo da vida).

Um exame neurológico cuidado determinará se existe envolvimento cerebral, e os dados da história ajudarão a perceber se se trata de um quadro agudo não progressivo (traumatismo, lesão vascular), agudo progressivo (inflamação, neoplasia), progressivo de evolução crónica (neoplasia, doença degenerativa, inflamação), ou se a intensidade dos sinais parece oscilar (doenças metabólicas).  Elabora-se então um lista das etiologias possíveis: diagnósticos diferenciais.

 

Principais Etiologias das Doenças Cerebrais em Geriatria

Degenerativas Síndrome de Disfunção Cognitiva  (SDC)
Metabólicas HipoglicémiaEncefalopatia   Hepática

Renal

Electrolítica

Acido-base

Neoplasias Primárias

Meningiomas

Gliomas

Neuroblastomas

Ependimomas

Tumores do plexo coróide

Secundárias

Metástases

Tumores do esplancnocrânio que invadem o neurocrânio (e.g. nasais, salivares, ósseos)

Inflamatórias Infecciosas

Esgana, Erliquiose, Neosporose, Toxoplasmose, fúngicas e bacterianas

Idiopáticas

Meningoencefalite Granulomatosa (GME)

Encefalites Necrosantes (NE, NLE)

Vasculares Acidentes Vasculares Cerebrais

Enfartes cerebrais

Isquémicos (Regionais ou Focais)

Hemorrágicos

IsquéCHipoperfusão CerebralEncefalopatia por Hipertensão

                     Legenda: GME granulomatous meningoencephalitis; NE necrotizing encephalitis; NLE necrotizing leucoencephalitis.

 Qualquer animal geriátrico com suspeita de doença neurológica deve fazer análises sanguíneas, radiografia torácica, e ecografia abdominal. Estas provas podem ajudar na investigação da queixa neurológica (e.g. hipoglicémia, testes genéticos, metástases pulmonares, neoplasia abdominal) e serão também úteis em conjunto com avaliação cardiovascular na eventualidade de anestesia geral para a realização de exames de imagem. Na investigação de alterações cerebrais os meios de diagnóstico por imagem mais úteis são a Tomografia Computorizada (TAC) que, distinguindo os tecidos pela sua densidade radiográfica, permite com boa resolução espacial detectar desvios da linha média cerebral ou alterações anatómicas grosseiras, determinar a presença de massas ou outras lesões que ocupem espaço desde que possuam algum tamanho, e em alguns casos suspeitar de lesões inflamatórias ou vasculares; e a Ressonância Magnética (RM) actualmente o meio por excelência para o estudo do encéfalo na Medicina Veterinária, uma vez que fornece boa resolução de contraste, especialmente sensível na detecção de variações nas propriedades físicas e químicas dos tecidos, permitindo identificar a maioria das lesões inflamatórias, neoplásicas, vasculares, e traumáticas, bem como algumas doenças nutricionais, metabólicas e tóxicas, além de fornecer excelente detalhe anatómico. A análise do líquido céfalo-raquidiano (LCR) pode ser necessária para despiste de inflamação, confirmação de hemorragia ou ocasionalmente identificar células neoplásicas e agentes infecciosos.  A imagiologia ajuda a determinar se o local proposto para colheita de LCR reúne condições de segurança (e.g. hérnia do cerebelo caudal no forame magno). O prognóstico das doenças cerebrais nos pacientes geriátricos varia com a causa: geralmente reservado a grave no caso de tumores cerebrais intra-axiais (e.g. Gliomas) e doenças degenerativas (SDC: maneio alimentar ou farmacológico pode ser útil), as doenças inflamatórias e as vasculares podem ter prognóstico favorável a grave, os tumores extra-axiais podem ter prognóstico favorável a reservado e  em alguns casos pode conseguir-se cura cirúrgica (e.g. Meningioma felino). 


2 comentários

Marcia Sayuri Hatushikano · Fevereiro 27, 2014 às 11:33 pm

Olá!Sou estudante em Medicina Veterinária e estou no último ano. O motivo do meu contato com vocês é o meu TCC, pois o meu tema é síndrome da disfunção cognitiva em cães e gostaria que você me ajudassem me disponibilizando se possível esse material, pois está difícil encontrar material para esse tema que é simplesmente fantástico! Adorei a matéria, obrigada!Aguardo o contato!

magali soares · Fevereiro 14, 2013 às 2:27 pm

O que é convulsão neurológica ?Minha cachorra tem 15 anos. Tem câncer e problemas cardíacos. Agora tem dado um ataque onde fica toda esticada, por minutos parece que está fora de si,faz xixi e/ou coco sem perceber enquanto está sofrendo o ataque e depois de alguns minutos volta a si.Isso tem acontecido com frequencia, a cada dia são mais os ataques. Ontem por exemplo, ela teve isso 4 vezes.Esses ataques são convulsões neurológicas?

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